Em meio ao cenário atual que vivemos com a pandemia do novo coronavírus, nos deparamos com várias análises que nos convidam a refletir sobre nossas atitudes e o impacto que produzem na sociedade.

Para contextualizar, basta olharmos para os números do isolamento social no Brasil, principal medida para conter a propagação do coronavírus e evitar um colapso do sistema de saúde.

A média no país está em 43,4%, segundo dados do levantamento feito pelo Monitor Estadão/Inloco, índice bem abaixo da taxa de 70% que os especialistas apontam como ideal para frear o crescimento de casos. Ou seja, mesmo ciente de que o certo é ficar em casa, guardadas as devidas exceções, muitas pessoas estão descumprindo a recomendação.

Para tentar explicar, a advogada Ana Amélia Abreu, Regional Compliance Officer da thyssenkrupp Elevadores, traça um paralelo entre a Covid-19 e os programas de compliance das empresas, área que reúne um conjunto de normas legais que devem ser cumpridas. “Assim como na pandemia, na área de compliance precisamos fazer a coisa certa para a coletividade ser bem sucedida, mas nem sempre é tão simples, pois temos muitos comportamentos situados em áreas cinzentas que podem gerar dúvidas sobre qual a atitude correta”, afirma.

É o que acontece quando, por exemplo, as crianças se reúnem para brincadeiras no condomínio, apesar da determinação municipal de fechamento das áreas comuns. É fácil encontrar vários motivos para essa atitude, pois não é fácil manter as crianças em casa. O mesmo acontece no Compliance de uma forma geral. Quantas vezes ouvimos “Todo mundo faz assim”, “já fazemos isso há tanto tempo e nunca deu problema”, “é apenas para o bem da empresa”, “se não fizermos, estamos fora do mercado”. Não é simples estar na posição de dizer que temos que cumprir a lei, apesar de toda a dificuldade.

Para vencer esse impasse, algumas soluções costumam surtir efeito. Primeiro, mostrar de forma clara à sociedade que, ao comprometer-se com um padrão de comportamento indicado, todos ganham, ou seja, focar no resultado a ser alcançado. E, em segundo, garantir que as penalidades serão aplicadas aos que não cumprirem com o determinado, em outras palavras, tolerância zero.

A aplicação de multas em alguns países para quem não cumprisse as medidas de lockdown, por exemplo, surtiu efeito nas taxas de adesão, o que demonstra que impor sanções é um recurso muitas vezes necessário, quando serve para todos e com total transparência. A mesma regra vale para a prática de atos ilícitos, que depõem contra a coletividade, para a satisfação de interesses pessoais. Se não enxergar o risco que pode sofrer, as chances de um indivíduo agir fora da regra aumenta proporcionalmente.

Diante de tantos questionamentos que podemos nos fazer, a partir dessas colocações, o grande desafio, talvez seja, segundo a especialista, assegurar que as pessoas tomem as atitudes certas, mesmo quando ninguém está olhando.

“No Compliance, temos o teste da ‘capa de jornal’, que acredito também ser aplicável para os comportamentos em tempo de pandemia. O teste é simples: se o que eu estou fazendo saísse amanhã nas capas dos jornais, eu teria orgulho ou vergonha? Muitas dúvidas se dissipam com esse questionamento”.

Ana Amélia Abreu, Regional Compliance Officer thyssenkrupp Elevadores.

Ana Amélia Abreu, Regional Compliance Officer thyssenkrupp Elevadores.

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